Jó prefere que o dia de seu nascimento seja marcado pelas “densas trevas”.

Jó 3: 5-7
 “Contaminem-no as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; negros vapores do dia o espantem! A escuridão tome aquela noite, e não se goze entre os dias do ano, e não entre no número dos meses! Ah! Que solitária seja aquela noite e suave música não entre nela!”

Neste lamento de Jó, ele não amaldiçoa Deus como Satanás havia predito ou como (supostamente alguns estudiosos interpretam) a sua mulher lhe havia aconselhado. Este seu lamento (não é o único) gira em torno, estritamente, do dia em que ele nasceu. O mais profundo desejo de Jó, e da forma como é expresso poeticamente, aponta para o anseio de alguém que não tem absolutamente nenhuma perspectiva de vida. Ao contrário do que alguns intérpretes declaram, o desejo de Jó não é de que sua vida tivesse um fim instantâneo, antes, o que ele desejava infinitamente é que o dia em que ele nasceu nunca tivesse existido.

Jó não queria morrer naquele instante, o que ele queria era nunca ter existido. “Por que eu fui nascer?”. Essa é uma pergunta que, nos momentos de dor, já foi feita aos prantos por muitos filhos de Deus, inclusive o profeta Jeremias – “Maldito o dia em que nasci; o dia em que minha mãe me deu à luz não seja bendito. Maldito o homem que deu as novas a meu pai, dizendo: Nasceu-te um filho; alegrando-o com isso grandemente. E seja esse homem como as cidades que o Senhor destruiu sem que se arrependesse; e ouça ele clamor pela manhã e, ao tempo do meio-dia, um alarido. Por que não me matou desde a madre? Ou minha mãe não foi minha sepultura? Ou não ficou grávida perpetuamente? Por que saí da madre para ver trabalho e tristeza e para que se consumam os meus dias na confusão?”

Amaldiçoar o dia em que nasceu não se trata exatamente da mesma coisa que dizer: “Queria estar morto”, embora Jó tenha expressado esse desejo em mais de uma ocasião (assunto que abordaremos em outros artigos). Em momento algum, Jó fala de tirar a própria vida. A “lamentação pelo nascimento” declarada por Jó não é, em momento algum, uma apologia ao suicídio e, muito menos, à eutanásia. É, tão somente, a declaração de um homem cujo sofrimento era tão intenso e inconsolável que ele desejou jamais ter nascido.

Quando passamos por algum sofrimento, indiscutivelmente, dizemos e fazemos uma porção de coisas das quais, indubitavelmente, nos arrependeremos mais tarde. A questão de Jó não é que ele desviou o seu olhar, ele não perdeu o foco, mas o seu sofrimento era tão grande que ele se esqueceu das inúmeras bênçãos que o Senhor derramou sobre ele e sua família durante tantos anos. Se o desejo de jamais ter nascido fosse realizado, ele não teria sido o homem mais importante do Oriente. Sua história nunca teria existido e, consequentemente, nenhum legado teria sido deixado pra nós. Mas a dor nos faz esquecer as alegrias do passado e olhar somente para um futuro sem esperança.

Sendo assim, as palavras de Jó não refletem um desejo ardente, mas são simplesmente uma expressão de seu enorme desespero.

Erivelton Figueiredo

Deus te abençoe.
Graça e Paz.

Referências:
– Comentário Bíblico Expositivo do Velho Testamento – Warren W. Wiersbe

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